Uber Days

Certa vez quando eu era criança me perguntaram na escola: ” O que você gostaria de ser quando crescer?” Minha resposta foi taxista porque neste dia em questão os taxistas estavam fazendo uma greve e eu acha que pessoas deveriam continuar usando o serviço.

Talvez tenha sido um desejo de criança reprimido, mas eu já trabalhei como Uber. Eu gosto de encontrar pessoas e escutar suas histórias, gosto de contar histórias, por isso estou aqui, eu tenho muito prazer em servir e na hospitalidade em geral e por último e mais importante eu gosto muito de dirigir.

Antes mesmo se tirar CNH eu já tinha feito um curso no centro de pilotagem do futuro (CPF) e fui lá algumas vezes para dirigir karts ou mini buggys. Desde de que tirei carta sempre levava os amigos e os familiares de carona para cima e para baixo, o que me levou a conhecer ainda mais a cidade, parte da minha família é do interior de São Paulo e toda eu era eleito o motorista da ocasião, e é claro como nunca fui muito amigo do álcool, quando saia a noite com os amigos, sempre era eu que voltava dirigindo , mesmo quando o carro não era meu.

Em um dado momento da Klab a empresa era capaz de pagar as próprias contas, mas não sobrava o suficiente para retirar um salário, as economias de outros trabalhos já estavam acabando, então o plano era trabalhar na Klab 3 dias por semana, fazer Uber 2 dias por semana e nos fins de semana mais Uber quando não houvesse feira.

Troquei meu carro grande, espaçoso, caro e velho por um popular ,0km de manutenção barata, econômico e mais importante na garantia. Comprei um celular de trabalho, afinal caso acontece alguma coisa durante o trabalho de Uber, não queria que o ladrão tivesse acesso a minha conta bancária e mais importante às contas da Klab. E de quebra os clientes e fornecedores da Klab não iam fica ligando e e mandando whatsapp no meio das corridas.

Cadastrei na plataforma, fiz o curso, cadastrei o carro, tudo pronto e num domingo sem feira de julho resolvi testar a Uber. Resolvi iniciar de um lugar que com certeza teria corridas, fui até o parque do Ibirapuera e liguei o aplicativo, logo de cara ele me sugeri que tem um movimento maior que o normal próximo ao Lourenço castanho (escola) coloco no GPS e vamos para lá. chegando no local indicado paro o carro e logo em seguida já toca a primeira corrida, ainda meio perdido com os controles aceitei a corrida parti pegar meu primeiro passageiro em uma casa na Vila Nova Conceição e levei ele até os Jardins. Eu cumprimentei-o ele não respondeu, se sentou atrás do banco do motorista, abriu o vidro e seguimos até seu destino com ele mudo e calado, onde ele desceu sem falar nada. Fiquei decepcionadíssimo, esperava conhecer muitas pessoas e trocar muitas histórias e meu primeiro passageiro preferiu o silêncio total. Mas no restante do dia as viagens foram agradáveis faturei R$180,00 e voltei feliz com o resultado. Parece pouco se levar em conta todos os custos, mas para um primeiro dia e sem estudo foi bom, sim mesmo trabalhando como Uber para ter bons resultados requer estudo e experimentação.

Segui com essa dupla jornada por 8 meses e colecionei algumas histórias

Uma das coisas que foi constantemente elogiada, pessoalmente e nas avaliações, foi a música dentro do carro. Muitas vezes ela serviu de quebra gelo para iniciar as conversas, eu gosto bastante de música se você quer ver as playlist elogiadas veja meu perfil no Spotify. Eu tinha um protocolo o passageiro entrava no carro, eu confirmava o nome, iniciava a viagem, confirmava o destino, e comentava alguma coisa, podia ser sobre o local, a cidade, o tempo, apenas para sentir se passageiro gostaria de conversar ou preferiria ir em silêncio. E alguns passageiros mesmo estando felizes com o silêncio, quebravam o gelo para perguntar da playlist, muitos, inclusive, deles me pediram para enviar a playlist para eles.

Muitas viagens eu esqueci, mas alguns passageiros foram memoráveis, ainda no tema música levei um técnico de som e dois músicos do hotel para o transamérica expo, onde trabalhariam em um show de blues e fiquei muito feliz que através da playlist eles descobriram uma banda nova de blues que lhes agradaram e não conheciam, essa banda era Carolina Chocolate Drops.

Eu gostava muito de pegar passageiros em hotéis, e frequentemente me posicionava para tal, sinto que são pessoas mais abertas a troca de experiências. Certa vez peguei um grupo de 3 alemães, que pediram para ouvir rock progressivo no carro, eles iam do hotel para um restaurante japonês de rodízio em Pinheiros. Perguntaram sobre o Café Photo, conversei com eles um pouco sobre a prostituição em São Paulo (que tem um. Texto saindo em.breve) e recomendei uma outra casa que ficava próximo ao restaurante e também os atenderia em inglês. Eles me agradeceram e no meio da madrugada deram uma gorjeta pelo aplicativo, acredito que tenham gostado da casa.

Ainda de passageiros de hotel, levei duas venezuelanas do hotel para o tuju, restaurante que chegou a ter 2 estrelas Michelin e depois se tornou o Tujuina, ao ver o destino comentei já havia estado no restaurante e falei sobre outros restaurantes com estrelas Michelin em São Paulo. Foi uma corrida curta, a conversa não foi longa, mas chegando elas comentaram nunca tinham imaginado que iriam conversar sobre restaurantes com estrela Michelin com o motorista do Uber

Em todo esse tempo de Uber eu só aceitei duas corridas que foram viagens. Uma delas peguei dois passageiros no Itaim Bibi para levar a um hotel próximo a Viracopos em Campinas. A viagem de ida ocorreu sem problemas e já era tarde entao coloquei o destino São Paulo e vim voltando na esperança de que achasse um passageiro indo para São Paulo. Logo cheguei à estrada e imaginei bom agora acho que só vai tocar em SP, mas no meio da estrada toda.uma viagem com destino Jundiaí. Quando jogo o endereço no GPS uma rua no meio do nada, pensei comigo mesmo: aonde eu vou parar, mas segui mesmo assim, então me deparo com o Hopi Hari chego próximo ao destino e uma cancela de estacionamento, converso com a atendente e ela me diz que tenho 15 minutos de tolerância, então entro e procuro meus passageiros. O tempo da tolerância se esgotando e nada dos passageiros quando estava saindo para ir embora eles me acenam e vem correndo. Era um casal da Nigéria que estavam no país a trabalho, muito simpáticos. Seguimos nossos destinos e depois encerrei o dia.

Essas são alguma história dos dias de Uber outro dia conto mais algumas, mas certamente através do Uber conheci ainda mais a cidade e me deu subsídios para procurar novas localização para as ocupações de rua da Klab. Novas metas de localização das feiras e uma maior entendimento do tipo de público de cada bairro.

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