Feiras de Pequenos Produtores

Nosso (meu e do meu irmão) canal de culinária no YouTube rendeu uma oportunidade de criar uma linha de produtos e assim começamos a vender azeites aromatizados. Logo no começo veio a questão onde vender?

O Renato (meu irmão) trabalhava em uma grande agência de publicidade que de vez em quando recebia uma pessoa que vendia queijos. É muito tradicional aqui em São Paulo comerciantes que compram queijos em minas gerais direto do produtor e revendem dentro das empresas para os colaboradores. Então ficou decidido que essa seria a primeira tentativa. Este formato de venda dentro das empresas é conhecido com grêmios.

O primeiro grêmio foi um sucesso. Eis que é um formato muito interessante, você tem a oportunidade de ouvir o cliente, ou cliente potencial, num bate papo descontraído, se você é uma pessoa capaz de fazer o cliente se sentir confortável e relaxado, a resposta é maravilhosa. Você ouve, vê, e sente o que cada público pensa sobre seu produto. É uma ajuda incrível para fazer ajustes na linha de produtos e para conhecer quem são as personas do seu cliente.

Pesquisando sobre grêmios descobri a feira de economia criativa, também conhecida como feira de pequenos produtores e as vezes como feirinha ou até a feirinha de artesanato. E aí?, é tudo a mesma coisa? Bom para os olhos da prefeitura existem dois tipos: a feira livre (aquela que tem frutas, legumes e pastel) e eventos temporários; mas aos meus olhos tem muita diferença e cada uma tem um propósito.

Aqui acho que cabe um parênteses, se você ainda não conhece a Klab Azeites, essa é marca de produtos que constitui junto com o meu irmão, fazemos azeites aromatizados, e mais do que isso nos importamos muito com a apresentação do produto e da marca, gostamos de incentivar e trabalhamos a experiência do cliente, temos um produto que tem muito poucos concorrentes no Brasil e ainda menos entre os produtores artesanais, temos uma forte ligação com inovação e sustentabilidade na marca. Essas caraterísticas fizeram com que tivéssemos muito, mas muito acesso às feiras de economia criativa, combinado com fato que eu sou um comunicador e sempre mantive dialogo com os organizadores e outros expositores, isso me colocou em uma posição muito privilegiada de conhecer, testar, e até em alguns casos influenciar sobre as feiras de pequenos produtores.

Tem alguns eventos que posso salientar, todos são feiras e tem modelos de negócios semelhantes.

Primeiro o formato mais antigo, pelo menos em São Paulo, é a feira livre, onde os feirantes são produtores agrícolas na sua maior parte e escoam as suas produções de seus sítios e fazendas, embora existissem desde o séc. XV em São Paulo, elas foram regulamentadas em 1913 e era um lugar livre de atravessadores onde o munícipe poderia comprar direto do produtor. Em 1948 a cidade legislou que deveria haver pelo menos 1 feira livre em cada subdistrito ou bairro da cidade. No final do Século XX a feira livre mas não era bem vista pela sociedade com uma imagem abalada pela falta de compromisso de alguns feirantes, muito lixo sendo deixado na rua após os eventos e o fortalecimento de supermercados e sacolões pela cidade. Porém no inicio dos anos 2000 um movimento saudosista dos munícipes começa a considerar a experiencia da feira como algo bom, um amor pelas relações comunitárias entre as tendas coloridas, um apreço pelo feirante servindo frutas na ponta da faca, ou a promoção gritada no topo do pulmão. Tudo isso em conjunto com uma nova regulamentação que faz a limpeza da rua ao final da feira, com a aceitação dos feirantes e dos consumidores que eles não precisam competir em preço com o supermercado e é claro a aceitar a figura lúdica da feira (afinal feira significa festa, mas esse é tema para outro texto), guardem essa informação ela é muito importante.

Feiras Corporativas normalmente acontecem em grandes pavilhões e são focados em B2B (Negócios entre empresas) aqui entram a FeiCon, a Fispal e até a Natural Tech (sendo que a Natural Tech também é muito boa em vendas para o Cliente Final pessoa física). O objetivo destas feira é conectar o expositor com outras empresas com as quais ela possa fazer negócio, firmar contratos mais duradouros e é uma feira onde a uma exposição de marca é muito grande. Como a maioria dos negócios gerados são fechados após a feira é muito difícil medir seu real retorno financeiro.

Feirinha de Artesanato, você já ouvi alguma vez a expressão “Vou vender miçanga na praia”. Em São Paulo quando se fala em Feirinha de Artesanato a primeira coisa que vem a cabeça são as feiras no litoral paulista onde artesões vendem trabalhos manuais que em sua maioria são acessórios de moda ou peças de arte feitos com materiais baratos a preços acessíveis. Não existe muito uma preocupação com uma linha contígua de produtos ou com a experiência de compra do cliente.

Feirinha de Artes e Antiguidades, em um modelo de apresentação semelhante a feirinha de artesanato mas foca em comprar e vender objetos e objetos de arte usados e antigos

Feira Gastronômica, este formato começou a ganhar importância depois dos anos 2000 e virou uma febre depois da participação do renomado chef Alex Atala, proprietário de um restaurante com estrelas Michelin, na feira gastronômica da Virada Cultural de 2012. Aqui o enfoque é a comida, seja ela para pronto consumo ou para levar para casa. E é aqui que as coisas começam a ficar diferentes. Com a participação de grandes restaurantes e profissionais muito renomados em algumas destas feiras começa a surgir preocupações com a experiência do cliente. Embora a feira livre já vende-se pastel na rua desde dos anos 1940, foi a chegada destas marcas com reputações estabelecidas que fez o ponto de virada da feira entre um local de compras para um local de lazer. O publico não ia mais para feira porque precisava comer e sim para ver o que determinado expositor está servindo e mais importante como ele faz. Existe algo mágico na comida de rua se é possível fazer num espaço tão limitado, tanto fisicamente como de estrutura, com certeza posso fazer casa; embora nem sempre seja verdade esse pensamento causa um encantamento do simples porem surpreendente.

Existem também as feiras de tradições regionais como a Feira da Kantuta e Feira da Liberdade que representam a comunidade boliviana e oriental, respectivamente, embora elas sempre fossem vistas como atividade de lazer pelos paulistanos, elas não estão relacionadas com a formação da feira de pequenos produtores como conhecemos hoje.

A Feira de Pequenos Produtores, esse é o mais moderno formato de feira e ao mesmo tempo o mais antigo. Aqui o evento se assemelha a uma festa onde o conforto e felicidade do cliente é fundamental. A palavra mais importante aqui é curadoria, estas feiras acontecem por vezes em espaços públicos e outras em espaços privados. O grande charme deste evento, para o público, está em ver a seleção de produtos que o curador selecionou para aquela edição, conhecer pessoalmente os produtores, artesões e pessoas responsáveis pela confecção dos produtos, ter um toque humano que na maioria das vezes não está disponível em grandes lojas, conhecer e inquisicionar o quão especialista cada um destes produtores é no seu nicho, é uma oportunidade de aprendizado e em muitas barracas uma experiencia vivenciada que pode, muitas vezes, ser tópico de conversa ou até mesmo reproduzida dentro do seus círculos sociais. Estas feiras são eventos, além dos expositores com seu produtos e experiências, o dia do evento conta, com workshops, shows, atividades para crianças e qualquer entretenimento imaginável para se tornar um passeio de dia inteiro, que como consequência gera venda para os expositores ali presentes. Mas só o entretenimento não basta, a seleção de produtos passa por pessoas extremamente preparadas com produtos muito bem acabados, profundo conhecimento sobre suas respectivas áreas de atuação, e muito valor agregado, que estão dispostos a trocar seus produtos por remuneração e muitas vezes por outros produtos, também, assim como doar suas histórias de vida e conhecimentos para os clientes.

Eu disse lá atrás que encontrei a feira de pequenos produtos pesquisando sobre o feira de economia criativa, mas afinal, o que é feira de economia criativa?

A economia criativa são os negócios sobre o “criativo”, além do obvio como a arte, o desenho, o cinema, ela passa também pelo design, pela inovação e pela sustentabilidade. Quando aplicamos uma nova visão sobre um produto, problema, solução e conseguimos rentabilizar essa nova vertente estamos praticando a economia criativa. Ela está muito interligada com o conceito moderno de hackear, ou seja de subverter a regra ou ausência dela para obter um resultado mais favorável com menor esforço ou maior sustentabilidade, também muito próxima com a criação de produtos ambientalmente mais saudáveis e com o comércio local.
As feiras de pequenos produtores são na verdade grandes focos de economia criativa pois os produtos que estão ali fogem muito do lugar comum, são produtos que não podem ser encontrados em outros lugares, muitas vezes, que trazem inovação, sustentabilidade e mesmo que sejam tradicionais resgatam praticas saudáveis, que foram perdidas pela sociedade, essas feiras são um florescer de visões criativas e um palco formidável de conexões e networking.

Vou mais além e ainda digo que a Feira de Pequenos Produtores é a economia criativa da Feira de Artesanato, lembra que eu falei do lúdico da feira livre? A Feira de Pequenos Produtores inova ao trazer o lúdico à feira de artesanato, resgata a tradição da festa ao trazer outras atividades ao cerne da ocupação do espaço e transforma um opção de compra simples em uma complexa opção de lazer.

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